Saturday, December 6, 2008

Histórias de Rejeição: 1- Parque

"Precisamos falar. Acho que me arrependi." Soava a um alarmante fim de ciclo, final infeliz de uma história atribulada que eu pensava estar calma. Caiu que nem uma bomba. Um balde de água fria. É um golpe que dói mais pelo seu inesperado. E no entanto o meu masoquismo dava-me esperança numa reviravolta que traria a normalidade de volta. Mas o pressentimento do pior que podia acontecer estava bem presente e era bem forte. Gostava de não conseguir prever tais factos, no entanto bem que se confirmaram.
Combinámos uma conversa no dia a seguir. Repetindo um hábito com um ano, era mais uma vez eu que me deslocava. Era uma relação à distância e eu era o elo mais fraco. Um alvo de desconfianças provocadas, uma marioneta fraca, sem capacidade de resposta, sem uma visão defensiva que seria tão essencial para uma protecção eficaz contra este tipo de seres. Custou-me a adormecer. Meses antes fui visitado pela ruptura numa forma incrédula de correctivo por mau desempenho escolar. Uma porta entreaberta. Um nim, nem sim nem sopas. Vivia numa insegura ilusão que me cortava o pensamento. Tudo se recompôs, mais um faro de palha que comi. No entanto tudo parecia ter voltado a uma suposta normalidade que eu pensava ter existido em tempos.
"Por vezes penso que nunca devia ter voltado para ti". Nem mais nem menos. "Não consigo aguentar esta distância, está a ser angustiante". É fenomenal vindo de alguém que não se esforçou como devia.
Ficou combinado para o parque da cidade dela o final encontro. Uma viagem complicadíssima, no entanto, muito introspectiva, consegui recolocar as ideias no seu devido lugar, acabo por chegar ao destino já um pouco mais calmo, seguro de mim, não tinha feito nada de mal, logo na atribuição de culpas não me haveria quase nada a apontar. Como sempre não me esperou na estação, nem em mais lugar algum que não a sua casa. Raras foram as minhas viagens em que me esperou na estação. Isso sempre me fez sentir sozinho. Sentia que a minha chegada não era desejada. Estar ou não estar seria igual, e esse sofrimento não é nada agradável para quem de propósito se tem de deslocar ao longo de muitos quilómetros...
Enfim encontrámo-nos. A mesma cobardia, a mesma conversa de circunstância: "O Problema não és tu. Sou eu." Mas como é óbvio o problema não estaria em mim, nunca poderia ser eu. Andei ao sabor das ondas da tua vontade. Aturei-te todo um Verão e agora vejo que era mais um capricho apenas. Apetecia-te a minha companhia e agora já não te apetecia mais e querias saltar fora, mas nem para isso querias ter a decência de o fazer pessoalmente. Tive que ser eu a ter a coragem por duas pessoas e deslocar-me. "Não sei o que sinto". Eu sabia bem o que estava a sentir. Frustração. Porque sabia que eu é que nunca devia ter aceite tal reconciliação. Fui pouco inteligente. Enganado pela minha ceguez. Inevitavelmente existiram lágrimas e pedidos de desculpa. A conversa durou cerca de três horas. O meu inconformismo fez demorar a conversa. A verdade é que perversamente já estava tudo decidido. "A distância não me deixa estar nesta relação". A distância acabou por ser o argumento oficial da ruptura, da rejeição. Acabei por acatar o desfecho inevitável, por estre novas promessas de incerto, do "Nunca se sabe se um dia"... Nesse dia em que tu quiseres, eu não quererei. Eu sei disso. Não me iria prender a esses falsos sonhos. Entretanto a última despedida foi um simples adeus meu de dentro do comboio. Apesar da tristeza natural do momento, no fundo sentia que aquele dia seria importante para mim. O erro de quem me rejeitou acabaria por ser uma dádiva para mim, e aquele pôr-do-sol que acompanhava a minha viagem fazia-me ter a completa certeza desse facto.

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